Boteco da Dialética

Blog destinado ao desafio do livre pensar, criticando ou aplaudindo o que convir à sociedade ou na sociedade. Permitindo porém, a mutação dos pensamentos; como diz Mefistófeles: "Eu sou o espírito que sempre nega, e isto com razão, pois tudo que existe merece acabar." Portanto, critique, cutuque, debata, se puder!

domingo, 7 de março de 2010

Artigo após minha vivência camponesa de 15 dias em comunidade no Rio Tocantins. PA (Publicado no site: www.casacivil.pa.gov.br/procampo)

Cametá - Tapera sob uma Visão de Vivência da Engenharia Civil (Por: Maycal Souto)     

            Primeiro povoado do Baixo Rio Tocantins, Cametá-Tapera é um lugar pacato e receptivo, onde ainda podemos sentir um ar de natureza doce e simples, com uma vida cercada de heranças naturais. Cametá-Tapera localiza-se às margens do Rio Tocantins, o berço da colonização pelas missões católicas por volta de 1625. Segundo estudos feitos pela Prelazia de Cametá, ainda no ano de 1617 houve registros da presença de frades Capuchinhos de Santo Antônio, oriundos de Belém ou de São Luiz do Maranhão. Antes da chegada dos portugueses, em Cametá-Tapera viviam os índios Camutás. Posteriormente neste mesmo lugar, fora construída uma Ermida com o objetivo de catequizar os nativos ou mesmo fazer o que se chamava de aldeamento.

            Em 24 de dezembro de 1635, Cametá-Tapera tornou-se reconhecida como Vila de Cametá-Tapera ou mesmo Vila Viçosa de Santa Cruz de Camutá, onde serviria mais tarde como alicerce para a capitania de Feliciano Coelho de Carvalho e base significativa para a consolidação da Cidade de Cametá. Foi em Cametá-Tapera que Pedro Teixeira organizou sua expedição e partiu para a conquista da Amazônia com cerca de 1200 índios. Em 1713 a sede administrativa mudou-se de Cametá-Tapera para o sítio Parajó ou Murajuba, onde se assenta atualmente a cidade de Cametá, esta, portanto podemos chamar alegremente de herdeira dos frutos iniciais da colonização nascidos em Cametá-Tapera.

            Como dito, esta pequena e pacata localidade possui um enorme valor histórico, não somente para a região, mas entrelaçando-se também com a própria história do Brasil. Hoje chegando a Cametá-Tapera não podemos imaginar tamanha importância que esta localidade teve em tal contexto, pois não há indícios visuais sobre a história contada neste período colonial; a visão principal é de um povoado de vida harmônica com a natureza, onde o tom esverdeado de seu entorno não garante somente uma bela visão da Amazônia às margens do Baixo Rio Tocantins, mas também um eficiente meio de aquisição de bens nutricionais que regam o cardápio diário da comunidade.

            Este pequeno resumo histórico sobre Cametá-Tapera nos traz uma melhor visão sobre tal localidade e posterior melhor entendimento sobre o atual desenvolvimento sócio-cultural deste lugar. O PROCAMPO escolheu esta vila como uma das comunidades que receberiam estudantes durante a segunda vivência do programa. A vila foi escolhida devido a atuação desta num meio de produção agrícola local, apesar de hoje ainda estar engatinhando sob uma visão social moderna.

            Contrastando com todos os entraves podemos ver uma população local de natureza forte, cheia de vigor e força de vontade, ansiando por oportunidades que as façam ter um futuro melhor, nos aspectos básicos que uma população humana necessita. Sendo assim, vamos procurar manter, neste artigo, aspectos sociais pertinentes a uma visão a partir de um curso de Engenharia Civil e encaixá-lo onde poderíamos ter uma melhor adição de conhecimento na tentativa de melhorar a qualidade de vida dessa população.

            Os principais aspectos pertinentes a uma intervenção em favorecimento desta população, partindo de uma iniciativa da Engenharia Civil, seriam basicamente o que traria benefícios condizentes ao saneamento básico (fossas sépticas, sistema de drenagem de água e esgoto), trafegabilidade (estrada de acesso devidamente asfaltada e drenada, além da terraplenagem de ruas) contenção da erosão às margens do rio Tocantins (muros de arrimo com estudos de viabilidade de materiais locais). Tais meios trariam para Cametá-Tapera uma base de sustentabilidade que qualquer comunidade com os mesmo aspectos precisariam para poder pensar melhor num futuro mais digno.

            A questão sobre o saneamento básico deveria ser de imediato alvo para começo de melhoria da vida local. A ausência de fossas sépticas favorecem a contaminação do lençol d’água, além de proliferação de mosquitos, doenças por contaminação de vermes e outras pertinentes a esta questão. A carência de fossas não é gerada fundamentalmente por necessidade de mão-de-obra e matéria prima, mas sim por falta de informações que permitam a elaboração deste tipo de saneamento, sendo assim o morador local chega a adquirir material basicamente necessário para construção de uma fossa, no entanto sem a instrução técnica necessária, acaba por fim elaborando uma obra de total inconveniência técnica e incapaz de contribuir para o saneamento básico. Levando isto em consideração, como estudante de engenharia civil acredito que uma simples panfletagem, com um esquema técnico de construção de fossas sépticas, já ajudaria, e muito, o saneamento local.

            O sistema de drenagem de água e esgoto seria um processo muito importante para o desenvolvimento, não só no que converge a saúde da população local, mas também por ser uma obra que vem acompanhada de terraplenagem e pavimentação, daria a possibilidade de aumento da produção local de açaí, farinha de mandioca, pimenta do reino, cupuaçu e outros. Daria a garantia de uma rede logística de transporte deste meio de produção e, portanto, a perspectiva de desenvolvimento econômico com o escoamento da produção local. Lembrando também que a estrada de acesso a Cametá-Tapera, partindo para cidade de Cametá, se torna intrafegável no período de inverno, prejudicando todo o trajeto até esta cidade, dificultando o trafego de acesso às escolas e trabalhos de onde a população extrai a sua dignidade mesmo com tamanha adversidade.

            Em relação à erosão causada pelo Rio Tocantins, pode-se dizer que trará em pouco tempo danos aterrorizantes para a comunidade local, não somente de Cametá-Tapera, mas também de outras comunidades que vivem às margens deste rio. Relatos de moradores locais indicam uma média de avanço da erosão em considerações empíricas, de aproximadamente 2 m (dois metros) em apenas 9 anos. No entanto em alguns trechos onde o solo é mais fraco e a lixiviação o satura ainda mais, o avanço da erosão se torna mais rápido e já atingiu parte da “rua” que circunda as margens do rio, sendo assim, logo irá engolir os postes de energia da comunidade e num futuro bem próximo irá atingir algumas casas da população.

            Podemos dizer que hoje a engenharia possui meios distantes demais da realidade econômica local para a construção de muros de arrimo que possam realmente conter a erosão nas margens deste rio. A própria cidade de Cametá já sofreu e ainda sofre com este problema. Inúmeros muros de arrimo já foram destruídos pela fúria deste rio de ondas severas. Meios como os desvios das correntes d’água já foram e são utilizados com relativo sucesso, instalando diques improvisados, utilizando-se de embarcações afundadas em trechos do rio em que se pode desviar as correntes d’água, diminuindo, portanto a intensidade do impacto causado nas margens e, sendo assim reduzido o processo de erosão.

            Em tal contexto, a construção de muros de arrimo se torna, portanto, um elemento primordial por manter condições de vida favoráveis à existência futura da comunidade local. Entretanto, as adversidades econômicas e a singularidade da geografia às margens do Rio Tocantins, tornam esta uma obra de grande dificuldade, não só do ponto de vista econômico, mas também do ponto de vista técnico. Partindo deste pressuposto, e convivendo em comunidade acadêmica, afirmo que alguns estudantes e profissionais da área até possuem soluções geniais para construção de muros utilizando materiais locais e com boa chance de sucesso na contenção das erosões.

            Com tais explanações esperamos ter desenvolvido neste texto, não somente os aspectos visuais em Cametá-Tapera, mas também, tentar de alguma forma abrir os olhos dos que possuem o poder de ajudar essa tão rica comunidade, cheia de vontade de viver e prepará-los para um futuro ainda melhor, com maior justiça social e expectativa de vida de seus moradores e gerações posteriores, garantindo também uma maior valorização da história tão importante que fez surgir essa tão receptiva e acolhedora gente, vivendo como podem apenas com a graça de suas boas vontades e o bom do que a natureza os trouxe.

Acesse o link:

sábado, 6 de março de 2010

A instrução de pai e mãe faz a diferença. (Publicado em O LIberal, 28/04/07)

            Estamos vivendo uma época nova, uma época na qual o jovem está cada dia mais livre, os direitos estão a cada minuto mais favoráveis à vulnerabilidade do ser como vida biológica. Ser adolescente já não é ser tão rebelde, temperamental, compulsivo, atrabiliário, como achavam em tempos passados; hoje o jovem já não está tão rebelde, não está agressivo, não está teimoso; o jovem está, eufemicamente, como dizem os 'especialistas', 'propenso a certas tempestuosidades comportamentais, geradas por uma mudança na sua taxa hormonal'. Daí o adolescente ser abjeto devido a um péssimo caráter não se torna tão ruim ou culposo, por desta forma aparentar não ser o cérebro quem comanda as atitudes dele. O pobrezinho está atabalhoado pela maldita explosão hormonal e as atitudes dele vêm dos monstrinhos que parasitam seus corpinhos em formação, tornando-os pequenos zumbis inimputáveis.

            É um pouco confuso hoje o homem vangloriar-se por ser o ser supremo da biosfera, o único ser racional, capaz de tudo que sua brilhante mente o puder proporcionar, querer se comparar com os mais simples e menos complexos seres insociáveis. Vejamos: imagine um pitbull, um simples, insociável e pobre cão, solto pelas ruas após sair de sua 'jaula'. Poderia o animal morder qualquer um em sua frente; não foi ensinado a esse ser que morder alguém é ruim, causa muita dor e pode matar. Imaginem uma cadela no cio e aquela dezena de parceiros querendo arrostar e viver um pouco de suas naturezas com a cadelinha. 'Tudo bem, sei que já tivemos vontade de sair por aí num dia daqueles e socar o primeiro idiota que pisasse o nosso pé; sei que muitos homens, ao verem uma linda mulher, sensual, envolvente, tiveram os seus hormônios aflorados', porém não saíram pelas ruas dando tabefes (salvo as exceções) nos primeiros que os enfezaram, não arrancaram a roupa da mulher que desfilava linda e faceira pelas ruas e a sucumbiram aos seus lascivos desejos. Portanto, ter o mínimo de noção na esfera social ajuda bastante e nos difere dos animais.

            Isso tudo faz a diferença do ser pensante sociável, detentor de um cérebro capaz de aprender como se deve agir para ser bem aceito de um modo geral na sociedade. Não devemos analisar quantitativamente os adolescentes. Cada ser, em seu mundo, absorve a educação que lhe é dada, portanto devemos saber que a educação oferecida a um filho, um neto, um sobrinho, não será para exclusiva utilização familiar; devemos saber que o ser terá que conviver em sociedade e todos os espaços que ela proporciona para uma aglomeração humana, no qual cada um terá que inspirar ou expirar a educação do outro, a boa ou a má, e estas formam diferenças significativas na vida como um todo. Sendo assim, a desculpa dos especialistas só serve para alguns, não se encaixa na maioria dos adolescentes. A história da explosão hormonal é bem verdade, mas a média de idade de estupradores passa longe da adolescência. A violência doméstica também, mas a criminalidade fora de casa, os pequenos assaltos, furtos, roubos, latrocínios, homicídios, etc, somam, e muito, à média de idade adolescente.

            O valor moral, social, educacional que irá construir um ser sociável, humano e digno, é determinante na hora de diferenciá-lo dos animais. Por isso, viver em família e absorver boas instruções de pai e mãe traz ao adolescente de hoje uma significativa diferença, conduzindo-o a um mundo real, dando-lhe o discernimento entre a tela e a vida real, entre o bem e o mal. Todavia, sem boa educação, defender-se atrás da impunidade torna-se cada dia mais rentável no comércio da criminalidade.

Maycal Souto

Novos (novos?) caminhos da educação (Publicado em O Liberal, Cartas na Mesa - 2007)

            Alarga-se o caminho para lutar por um ensino melhor. Abrem-se as portas das universidades públicas. Surge no horizonte a qualidade educacional. Vislumbram-se os intelectuais da sociedade com a situação; com a revolução educacional feita pelo sistema de cotas vigorante nas nossas universidades. Diminuem as dificuldades de entrar nas escolas; as vagas estão abertas! O ensino está ai, capacitando brasileiros de origem proletária a se tornarem grandes intelectuais. 'O Senai formou um milhão de torneiros e um presidente da República', já dizia a propaganda do mesmo quando Lula foi eleito presidente. Então, não há mais preocupação, tudo já está encaminhado e resolvido com essa medida que nem Deus soube encontrar, mas Cristóvam Buarque, ex-ministro da Educação, demitido pelo presidente Lula, diga-se de passagem, defendeu com unhas e dentes antes de ser banido de sua cadeira, e conseguiu! Parabéns, Cristóvam! Parabéns, brasileiros, não teremos mais problemas, não é?
            
            Já que tudo está resolvido, não devemos mais nos preocupar com a educação, deixa que nossos honestíssimos ministros pensem e resolvam. O governo só tem que continuar fazendo o que faz, tem que continuar medindo o acesso à educação, medindo a taxa de matrícula nos diversos níveis do sistema educacional, já que se torna um indicador suficientemente preciso, não é verdade? Muito simples: é só medir de forma censitária a parcela da população daquela cidade que vai à escola em comparação com a população municipal em idade escolar. O outro critério para a avaliação da educação de uma população é o percentual de alfabetizados maiores de 15 anos. Ele se baseia no direito constitucional de todos os brasileiros de terem acesso às oito séries do ensino fundamental. Ao final desse período, que, pelo calendário normal, se encerraria aos 14 anos de idade, espera-se que o indivíduo seja capaz de ler e escrever um bilhete simples. Daí o afortunado começa o ensino médio, em escola pública, excelente escola pública, o conclui e entra através de Cota, simples! Eureca, deve ter gritado o ex-ministro, problema resolvido!
  
           Acho que Cristovam Buarque trouxe o Éden para nós. E é essa mesma educação, medida da forma citada, que servirá como critério para medir o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano). No ensino médio, o aluno tem uma preparação focada para responder perguntas de vestibular. Opa, tem algum problema! Cadê a formação cidadã? Ela não seria no mínimo um resultado a ser perseguido pelo governo? Uma vez que depende da preparação humana desse jovem a contribuição efetiva para o desenvolvimento do Brasil? Eis uma falha. As falhas começam a surgir, vamos às falhas: 'O emprego do século 21 requer habilidades mentais', diz Célio da Cunha, representante da Unesco no Brasil para a área da educação. 'Exige raciocínio rápido, capacidade de interpretação e de análise da informação', atributos inerentes após o ensino médio brasileiro, verdade? Não, utopia! Em 2003, o Sistema Nacional de Avaliação do Ensino Básico indica que, na 8ª série, menos de 10% dos estudantes haviam adquirido competência para elaborar textos mais complexos. Com isso cerca de 75% dos adultos têm alguma deficiência para escrever, ler e fazer contas.

          Então 'vamos abrir o verbo': o pífio desempenho da educação brasileira começa a alcançar patamares ainda piores com as iniciativas dos nossos ilustres novos governantes. Os novos projetos, como o ProUni, são lamentáveis; além de termos pouca verba para a nossa educação, a maior parte dela será canalizada para a iniciativa privada. Enquanto isso, as universidades públicas serão preenchidas com alunos mal instruídos, com a bengala das cotas. Segundo a Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), os alunos beneficiados por cotas, em trinta cursos, tiveram desempenho muito inferior aos demais. Sua nota máxima obtida no vestibular foi mais baixa que a mínima obtida pelos não-cotistas. Nossa, que maravilha! São dados verossímeis, não é previsão, é fato!

            Então por que os amigos governantes insistem numa medida destrutiva? Não será porque as notas do ENAD tornar-se-iam cada vez mais lastimáveis nas universidades federais, estimulando assim o investimento na iniciativa privada? Hum, acho que descobri a velha malandragem brasileira: é fácil os malandros engravatados largarem a responsabilidade pela manutenção do ensino na educação pública, porém, difícil será a vida futura de um país sem investimentos em tecnologia, marginalizado e desqualificado na corrida de nosso mundo globalizado, mas tudo bem, esse povo sempre tem o sorriso largo mesmo... Com os dentes cariados, mas tem! São os velhos brasileiros...

Maycal Souto

quinta-feira, 4 de março de 2010

Tem muito trabalho (Publicado em O Liberal, Voz do Leitor - 2005)

      Ao nascer de cada ano, o sonho dos jovens por um espaço reconhecido no mercado profissional, torna-se mais difícil de ser alcançado; a moldura da juventude na cobiçada ascensão trabalhista torna-se pior a cada reforma governamental, a cada emenda constitucional, a cada decisão política, nesse país que vive malogrado num inferno abissal, marcante não só por suas políticas contemporâneas, mas sim por toda sua história, desde o falso Grito do Ipiranga até a "CPI dos correios", do "mensalão" dos pervertidos corruptos do partido dos trabalhadores, que de trabalhador só tem o nome para envergonhar quem verdadeiramente ganha o pão de cada dia com o suor do trabalho honesto, digno de um verdadeiro homem.

            Os jovens almejantes de um espaço no "supermercado de trabalho", vivem angustiados por exigências que os desqualificam para exercer um cargo rentável e reconhecido pela sociedade. O governo tenta de todas as formas ludibriá-los com políticas de primeiro emprego, onde segundo esta, não há necessidade de experiência profissional, no entanto, não haverá posterior experiência profissional significativa para os pobres mancebos; contratados pelo governo e por empresas privadas para serem idiotizados com os tentadores nomes que inspiram altos níveis de importância como: consultor ou promotor de vendas (vendedor), secretária do lar (empregada doméstica), diarista (empregada sem vínculo trabalhista), operador tele marketing ou (vendedor por telefone ou telefonista), executivo de entrega ou, como herança do amigo Tio San, (Office Boy), não bastando existem mais absurdos como divulgador de marketing (panfletista). Se isso não é tentativa de chamar-nos de imbecis, com os tentadores e belos nomes para um mero trabalho, não sei mais o que seria.

             Não pensem vocês que os jovens estão desqualificados; muitos têm conhecimento em certos níveis técnicos e profissionais, mas a exigência é cruel quando pede ao desafortunado que tenha de três a quatro anos de experiência em carteira assinada, ou quando o desgraçado está cursando níveis estudantis às ofertas de estágios são uma combinação de ofensa com humilhação: outro dia, um aluno de Engenharia Civil - a primeira e tão honrada engenharia - procurando um estágio no jornal, encontra-o com uma remuneração de R$ 4,64 quatro reais e sessenta e quatro centavos por dia, sem contar com o ônibus que o leva e o traz do estagio, que lhe custaria hoje, somando apenas as "meias passagens" R$ 2,30 dois reais e trinta centavos, e mais R$ 2,30 para levá-lo à universidade e posteriormente a casa dele, isso lhe tiraria diariamente R$ 4,60 quatro reais e sessenta centavos, sobrando para o desgraçado apenas R$ 0,04 quatro centavos por dia para seus gastos com cadernos, canetas, apostilas, livros, congressos e para comprar algum alimento que o fizesse permanecer vivo para o próximo dia de estágio. Mas, me desculpem eu havia esquecido que estágio é para qualificar o estudante.

             Vergonha... Seria eufemismo perante tamanha imoralidade, safadeza, pornografia social, que é a tentativa de nos enganar com tais trabalhos que só servem para favorecer a iniciativa privada com isenção de impostos por suas belas ações em contribuição ao social. Se indignação, humilhação, repulsa, vergonha e aversão, pudesse ser resumida numa única palavra ela seria usada, neste momento, para demonstrar o sentimento de milhões de jovens que sonham por um simples, porém, digno emprego no penhor da igualdade no ceio da liberdade desse país, cujo nome origina-se de brasa: Brasil, essa brasa que é o inferno de todos os dias do jovem brasileiro.

Maycal Souto